As perguntas mais frequentes

Maria Fernandez

Maria Fernandez

São vários os pais e cuidadores que me abordam com o objectivo de iniciarem a introdução alimentar complementar mas sem saber quando e como começar e muito preocupados com perigos e mitos que se foram criando em torno do BLW. 

Fui entrevistada para a DoBem, respondendo a algumas dessas perguntas mais frequentes. Estas respostas são um bom ponto de partida para quem está curioso mas ainda não se decidiu sobre como quer fazer a introdução da alimentação complementar do seu bebé.

1. O que é BLW e a partir de que idade se pode fazer? 

O BLW é a introdução da alimentação complementar guiada pelo bebé. O bebé mostra que está preparado para se alimentar e os pais ou cuidadores oferecem os alimentos confeccionados de acordo com a fase de desenvolvimento em que se encontra. Esta abordagem guiada pelo bebé está enraizada no desenvolvimento físico, mental e emocional do bebé, tendo por base a forma como os bebés se desenvolvem e as capacidades que surgem naturalmente no primeiro ano de vida. Comer com o bebé, partilhando a refeição familiar e fazendo desta um momento de celebração familiar é o cerne do BLW. Não há necessidade de papas nem purés, com recurso à colher. O bebé alimenta-se de forma autónoma, explorando e apreciando refeições saudáveis em família desde o primeiro contacto com os alimentos sólidos.

A partir do momento em que o bebé mostra sinais de estar pronto para se alimentar, pode introduzir-se o BLW. Isto, na maior parte dos bebés, acontece por volta dos seis meses de idade, quando são capazes de atos como: ficar sentados com pouco ou nenhum apoio, estender a mão e pegar em coisas eficazmente, transportar objetos até a boca com precisão e fazer movimentos mastigatórios.

Nesta idade, a maioria dos objetos é levada à boca automaticamente, como parte do desenvolvimento exploratório do bebé, pelo que acabamos por juntar esta curiosidade natural à descoberta dos alimentos.

O sistema digestivo do bebé não está preparado para processar alimentos até por volta dos 6 meses.

É por tudo isto que os seis meses é a idade recomendada por entidades como a OMS, a Academia Americana de Pediatria, o Departamento de Saúde do Reino Unido ou a Sociedade Espanhola de Pediatria como o momento ideal para iniciar a diversificação alimentar.

2. Pode ser aplicado em simultâneo com a amamentação?

Pode não, deve! Porque o leite é o alimento principal até ao ano de vida, seja materno, seja artificial.

É consensual, quer por parte das comissões de nutrição (ESPGHAN, 2017; Comissão de Nutrição da Sociedade Portuguesa de Pediatria, 2012) quer pela OMS (WHO, 2009), que o lactente deve ser exclusivamente amamentado durante os primeiros 6 meses de idade, devendo a amamentação manter-se a par da diversificação alimentar e durante a introdução na dieta familiar, ou seja, até aos 12-24 meses, ou até que a mãe e o bebé o desejem. Importa referir que o aleitamento materno, mesmo que parcial ou em período menor que o desejável, mantém um efeito benéfico quando comparado com a alimentação exclusiva com fórmula infantil.

Devem adicionar-se gradualmente os alimentos, mantendo o leite materno em livre demanda. É com base nisto que o bebé vai começar a complementar o leite materno ou artificial com outros alimentos. Oferecer leite antes da refeição ajudará a fornecer os principais nutrientes de que o bebé necessita, complementando-o de seguida com os alimentos, com o objetivo de expô-lo a diferentes aromas, texturas, sabores, entre outros, para que possa apreciá-los ao seu próprio ritmo. Desta forma, o bebé vai guiando o ritmo da sua introdução e vai praticando as habilidades necessárias para mais tarde, quando os alimentos sólidos substituem gradualmente o leite materno, e se tornam o principal aporte nutricional, por volta do ano de idade. A maior parte dos alimentos têm menos calorias do que o leite materno, pelo que oferecer grandes quantidades de alimentos antes ou em vez de amamentar pode reduzir a ingestão de leite de um bebé muito rapidamente, e levar a um fraco ganho de peso.

Os estudos reforçam esta ideia e revelam uma maior duração do aleitamento materno (em mães que assim o desejam) por ser um desmame fisiológico e guiado pelo bebé ou autorregulado. Um dos que poderia citar é Appetite Volume 137, 1 June 2019, Pages 198-206 Differences in parental feeding styles and practices and toddler eating behaviour across complementary feeding methods: Managing expectations through consideration of effect size por S. Komninoua, J. C. G. Halfordb e J. A. Harrold.

3. Antes de se denominar BLW, aquilo em que consiste era já praticado por alguns pais?

O BLW não é novidade. Ia sendo implementado por vários pais, muito antes de ter um nome, mas hoje em dia já temos dados advindos dos estudos realizados desde que se começou a pôr em prática de forma empírica, que avaliam a sua aplicabilidade, riscos e resultados.

4. O que é necessário antes de aplicar esta prática às crianças?

É importante estarmos bem informados e trabalhar os medos que possamos ter neste momento importante na vida do nosso bebé, de forma a que não interfiram nas vivências dos nossos pequenos. Quando nos sentamos à mesa, é para nos nutrirmos por meio dos alimentos, mas também para desfrutarmos e para criarmos boas recordações que ficarão para sempre.

5. Existem perigos no BLW? Como evitá-los?

Os perigos do BLW são os mesmos que os da abordagem tradicional, e podem evitar-se se os pais estiverem bem informações sobre a segurança à refeição.

Temos, por exemplo, o mito do engasgamento. Para evitar um possível engasgamento, basta cumprir os critérios básicos de segurança, como:

– Oferecer as refeições com o bebé sentado e direito;

– Supervisionar sempre o bebé durante as refeições;

– Adequar bem a consistência dos alimentos para que não constituam perigo de engasgamento.

6. É mito ou verdade que as crianças comem menos (por espalhar comida ou deitá-la para o chão) com o BLW?

Tanto o leite materno ou leite de fórmula como os alimentos (sejam oferecidos triturados ou em BLW) devem ser oferecidos em livre demanda, sempre respeitando os sinais de fome e de saciedade de cada bebé, para que este tenha a oportunidade de ouvir o seu corpo e responder às necessidades que ele transmite, o bebé come aquilo que precisa— a isto chamamos de autorregulação.

7. Quais os maiores desafios do BLW para os pais?

Os principais desafios referidos pelos pais começam, desde logo, pela desconfiança das pessoas mais próximas da família que, por falta de informação, podem mostrar o seu desagrado e inseguranças, transmitindo ansiedade aos pais ou cuidadores. Outro desafio passa por lidar com a sujidade que um bebé que se encontra a explorar os alimentos eventualmente provocará: poderemos ter um bebé com brócolos na cabeça e máscara facial de abacate, mas se nos concentrarmos nos múltiplos benefícios deste sistema, o processo tornar-se-á mais agradável.

8. Ao fim de quanto tempo são notórios os resultados do BLW?

Já existe evidência científica de que o BLW pode levar a resultados positivos para a saúde. Quando cedemos o controlo da alimentação ao bebé, estamos a colocá-lo no caminho certo para uma relação saudável com a comida, que tem potencial para durar ao longo de toda a sua vida. Há evidências de pesquisas transversais realizadas no Reino Unido e na Nova Zelândia de que o BLW está associado a menor agitação durante a refeição e constitui uma resposta mais eficaz à saciedade, quando comparado com bebés e crianças pequenas alimentados à colher, pela abordagem tradicional (e isto logo desde o inicio).

Esta abordagem apresenta excelentes resultados na aprendizagem e receptividade dos alimentos por parte dos bebés, tornando a sua introdução num processo natural e bem-sucedido. Por dar maior controlo ao bebé e encorajar formas de parentalidade responsiva, sabemos que o BLW pode levar a um melhor padrão alimentar e reduzir o risco de obesidade no futuro.

O artigo da DoBem pode ser lido aqui.

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2 respostas

    1. Ola Ana, não existe evidencia cientifica de que existam melhores alimentos do que outros para começar, mas o ferro deve ser uma prioridade.
      Alimentos saudáveis, oferecidos de forma segura e a garantir a variedade. Como preconizam os princípios da dieta mediterrânica, alimentos sazonais e de proximidade.

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